Preste atenção: sinais de alerta em crianças e pessoas próximas

Por Regiane Pais — Psicóloga, CRP 08/28603 · Atualizado em · Leitura de 7 min

O sinal de alerta mais importante é a mudança: quando uma criança passa a destoar do esperado para a idade dela — ou quando uma pessoa próxima muda de forma marcante e diz coisas como "não aguento mais" —, vale prestar atenção e buscar ajuda cedo. Não é rótulo, não é "drama" e não é culpa de ninguém: é sofrimento que merece cuidado. Reconhecer o sinal e procurar um profissional é o primeiro passo — e, na infância, intervir cedo reduz muito a chance de sofrimento na vida adulta.

Neste vídeo, a Regiane conversa sobre as alterações de comportamento que merecem atenção e por que não rotular o sofrimento psíquico.

O problema de rotular sem saber

Virou hábito usar termos da psicologia como acusação ou piada: alguém acorda irritado, melhora à tarde, fica alegre — e logo ouve que é "bipolar". Mas bipolaridade não é uma simples variação de humor. Quem de nós nunca acordou triste porque aconteceu algo, se desregulou naquele momento e depois passou? Isso é normal e humano: todos temos tristeza, raiva e alegria.

O problema é que, ao usar esses termos de forma pejorativa, a sociedade cria uma resistência enorme em quem realmente sofre. A pessoa passa a ter medo de admitir o que sente e de procurar ajuda — afinal, ninguém quer ser chamado de "louco".

Sofrimento psíquico não é "falta do que fazer"

Junto do rótulo vem a receita simplista: "o que falta para você é ter o que fazer", "se você tivesse fé não estaria assim". Quem está em sofrimento sabe que não é verdade — e essa fala, em vez de ajudar, afasta.

Regiane faz uma comparação direta: o cérebro é um órgão como o fígado, o rim ou o coração. Assim como esses órgãos podem adoecer e têm um especialista para tratar, o cérebro também pode — e também tem. Sofrimento psíquico não é defeito de caráter: é algo que se cuida, com o profissional certo.

Sinais de alerta na criança: quando se preocupar

O recado mais forte da Regiane é para mães e pais. O sinal a observar é a criança que destoa da maioria da idade dela: tem dificuldade de enfrentar situações que outras crianças da mesma faixa etária enfrentam com naturalidade.

Quando isso aparece, a reação comum é negar — "meu filho não tem problema", "essa criança não tem jeito". O perigo é que a criança ouve tudo isso e internaliza. Por isso, a orientação é outra: se você percebe que algo está difícil para o seu filho, procure ajuda. Não é vergonha, e não quer dizer que a criança seja "louca" ou "problemática" — quer dizer que ela está com dificuldade.

Para mães e pais: buscar ajuda cedo é cuidado, não acusação. Quando se intervém ainda na infância — trabalhando com a criança e com os pais —, desenvolvem-se estratégias para lidar com o mundo e cria-se um ambiente saudável. A chance de evitar uma patologia na vida adulta é imensa.

A culpa não é dos pais

Vale dizer com todas as letras: o psicólogo não está ali para acusar os pais, nem para dizer que "criaram errado". Muitas vezes simplesmente não temos estratégias para lidar com certos eventos, e o padrão vai se repetindo. Quem aponta o dedo ("cadê a mãe dessa criança?") é o senso comum — não o profissional. A psicologia entra como mais uma rede de apoio, para que a criança e a família tenham saúde.

Quando o sinal vem de uma pessoa próxima

O mesmo vale para os adultos ao nosso redor. É comum, depois de uma tragédia, ouvir "eu não sabia". Mas, muitas vezes, a pessoa vinha dizendo há muito tempo que estava cansada da vida, que não suportava mais o sofrimento — e foi ignorada, como se quisesse "chamar atenção". Esse sofrimento não acontece da noite para o dia, e por isso os sinais merecem ser levados a sério.

Se você ou alguém próximo está em sofrimento intenso, com pensamentos de não querer mais viver, peça ajuda agora — você não está sozinho(a). Ligue para o CVV — Centro de Valorização da Vida: 188 (atendimento 24h, gratuito e sigiloso). Em emergência ou risco imediato à vida, ligue 192 (SAMU) ou 190 (Polícia).

Como a família pode apoiar

O papel da família é ser um vínculo de suporte. Em vez de rotular, mostre com cuidado o que você percebeu: "você não estava bem e agora está assim — o que acha de buscar apoio?". E encoraje a procura por um profissional. Quem pode pontuar o que está acontecendo é alguém da área, que avalia com ética e baseado na ciência — não por impressão. A partir daí, vem o melhor caminho de tratamento e a qualidade de vida.

Perguntas frequentes

Quando devo me preocupar com o comportamento do meu filho?

Quando ele começa a destoar do esperado para a idade — dificuldades que outras crianças da mesma faixa não têm. Não é "ser problemático": é estar com dificuldade. Buscar ajuda cedo não é vergonha e faz diferença.

Buscar ajuda significa que meu filho tem um problema grave?

Não. Procurar apoio na infância é cuidado. Trabalha-se com a criança e com os pais para criar um ambiente saudável e reduzir a chance de sofrimento na vida adulta.

Por que não devo chamar alguém de "bipolar" ou "louco"?

Porque banaliza um sofrimento real e aumenta o estigma. Quem sofre passa a ter medo de admitir e de procurar ajuda. Transtornos são sofrimento, não defeito — e têm tratamento.

A culpa é dos pais quando a criança apresenta sinais?

Não. Muitas vezes faltam estratégias para lidar com certos eventos. O psicólogo não acusa: é mais uma rede de apoio para a criança e a família.

Como a família pode apoiar quem está em sofrimento?

Sendo vínculo de suporte: mostrar com cuidado a mudança percebida e encorajar a procura por um profissional, que avalia com ética e baseado na ciência — sem rótulos.

Sobre este conteúdo

Texto educativo baseado na conversa da psicóloga Regiane Pais sobre mudanças de comportamento que merecem atenção em crianças e pessoas próximas, o peso de rotular o sofrimento psíquico (psicoeducação) e a importância de buscar ajuda profissional cedo. Os contatos de apoio citados são o CVV (188), o SAMU (192) e a Polícia (190).

Conteúdo informativo e educativo; não substitui avaliação psicológica individual. Se você se identificou ou se preocupa com alguém, converse com uma psicóloga. Em sofrimento intenso ou pensamentos de tirar a própria vida, ligue para o CVV: 188 (24h); em emergência, 192 (SAMU) ou 190.