Abuso infantil: sinais de alerta e como proteger seu filho

Por Regiane Pais — Psicóloga, CRP 08/28603 · Atualizado em · Leitura de 8 min

Proteger uma criança é tarefa de todos — não só dos pais. O sinal mais importante de que algo pode estar errado é uma mudança brusca de comportamento: a criança que era alegre fica retraída e amedrontada, ou volta a fazer xixi na cama, tem pesadelos, evita certas pessoas ou passa a ter brincadeiras e desenhos com conteúdo sexual. Esses são sinais, não um diagnóstico — mas qualquer pessoa que conviva com a criança (pai, mãe, avô, professora, vizinho) pode reconhecê-los e tem o dever de protegê-la. Diante de qualquer alteração marcante, acolha a criança, converse e busque ajuda; e, ao desconfiar de abuso, denuncie — ao Conselho Tutelar e ao Disque 100 (gratuito e anônimo); em emergência, 190. A denúncia salva crianças, e a culpa nunca é da criança.

Neste vídeo, a Regiane explica como reconhecer os sinais do abuso infantil e por que denunciar — qualquer pessoa pode (e deve) proteger uma criança.

Quais são os sinais de alerta?

O sinal mais visível, que qualquer cuidador atento percebe, está no comportamento. A criança que era extrovertida e brincalhona de repente fica tímida e retraída — ou o contrário: a calminha fica agressiva, ou a agitada passa a ter medo de tudo. Ela deixa de gostar de atividades de que gostava, ou se apavora diante da possibilidade de ver ou ficar perto de uma pessoa ou de ir a um lugar de costume.

É comum também a regressão: a criança que já não usava fralda volta a usar, faz xixi na cama, não controla os esfíncteres, acorda gritando e chorando, tem pesadelos, ou volta a falar de forma infantilizada. Pode haver mudança de hábitos (o bom aluno que não quer mais fazer nada) e, em alguns casos, a criança — principalmente a menina — passa a usar roupa larga, querer cortar o cabelo, deixar de se arrumar: às vezes está tentando "ficar feia" para não atrair quem a abusa.

É importante repetir: nenhum desses sinais, sozinho, prova um abuso. Eles podem ter outras causas — inclusive bullying. Mas, como a Regiane reforça, diante de qualquer alteração marcante, o caminho é o mesmo: buscar ajuda.

A sexualização precoce: um sinal que merece atenção redobrada

A criança usa o lúdico — o brincar, os desenhos, os contos — para dar conta daquilo que a machuca e ainda não consegue elaborar. Por isso, quando uma criança começa a desenhar genitálias ou cenas sexuais, ou a propor brincadeiras de conteúdo sexual com outras crianças, esse é um indício mais claro de exposição ao sexo. Pode ser um abuso que ela está sofrendo — ou acesso a conteúdos sexuais, o que é igualmente prejudicial, porque o cérebro da criança não está preparado para isso.

Atenção ao celular e ao computador: às vezes a criança parece segura no quarto e não está. Fique atento ao que ela vê e consome on-line. Há casos de adultos que pedem fotos, prometem presentes e depois ameaçam expor a criança. Quem cuida — pai, mãe, avô, avó, irmão mais velho — precisa acompanhar o que a criança acessa.

Quem costuma ser o abusador?

Aqui está o dado que mais surpreende os cuidadores. Segundo a psicóloga, cerca de 95% das crianças abusadas o são por pessoas conhecidas — e quanto menor a criança, mais próximo dela tende a ser o abusador. E, ainda segundo a fala dela, em torno de 65% dos casos o abusador está dentro do próprio grupo familiar: pode ser um tio, um primo, um irmão mais velho ou o pai.

Por isso é tão importante desconfiar do encanto fácil. Nem sempre o abusador é o "monstro" que se imagina: às vezes é o avô carinhoso, o tio atencioso que oferece bala, dinheiro, sorvete e a atenção que a criança não recebe em casa. Quando uma criança fica subitamente muito grudada em alguém de quem não era próxima, vale observar o que aproximou os dois.

Se você desconfia ou sabe de abuso contra uma criança ou adolescente, denuncie — a culpa nunca é da criança.

Disque 100 (Disque Direitos Humanos) — denúncia de violência contra crianças e adolescentes, gratuita e anônima, 24 horas.

Conselho Tutelar do seu município — acolhimento e encaminhamento.

Em emergência ou risco à vida, ligue 190 (Polícia).

O que fazer ao desconfiar?

O ponto de partida é ser, para a criança, um adulto de confiança: alguém com quem ela sabe que pode falar das suas angústias e dos seus medos, e que vai se movimentar a favor dela. Quanto antes você perceber a alteração, chegar até ela, perguntar o que está acontecendo e dar abertura para que ela conte, mais a exposição e a gravidade tendem a diminuir.

Se a criança contar que alguém está tentando abusar dela, vá aos órgãos competentes e faça a denúncia. A psicóloga é direta: pai, mãe, cuidador — não tenha vergonha e não se sinta culpado. Muitas vezes as coisas acontecem com pessoas da nossa confiança e fora do nosso alcance; lamentar "onde foi que eu errei" não ajuda. O que ajuda é ter coragem de relatar o que aconteceu, estar ao lado da criança e procurar apoio profissional. E mesmo que a conversa não revele abuso, busque ajuda do mesmo jeito: vá ao posto, peça avaliação com psicólogo, procure o Conselho Tutelar.

O Conselho Tutelar é suporte, não punição. Muita gente teme que o Conselho exista só para vigiar e punir os pais. Não é. A função é amparar e encaminhar, fazendo o que estiver ao alcance para que a criança tenha um desenvolvimento saudável.

Como prevenir?

A melhor proteção é o diálogo e a presença atenta. Ensine à criança, de forma adequada à idade, que o corpo é dela e que ela decide quem pode ou não tocá-la — inclusive o pai e a mãe: se ela não quer um beijo num momento, tudo bem. E observe mudanças no afeto: a criança afetuosa, que abraçava e beijava, que de repente se afasta do toque, merece atenção.

Materiais lúdicos ajudam nessa conversa. A Regiane cita o livro "Não-me-toque, seu boboca", que ensina a criança quais partes do corpo não devem ser tocadas e que ela pode dizer não. Fique atento, também, a quem se aproxima muito da criança e ao que ela acessa em telas — prevenir é, em boa parte, estar por perto e conversar.

A criança pode se recuperar?

Sim. O tamanho do prejuízo depende de muitos fatores: do acolhimento que a criança recebe, do quanto foi protegida, do tempo de exposição, de quem cometeu o abuso e de como ela foi ouvida. Um detalhe importante que a psicóloga faz questão de marcar: até um episódio considerado "leve" pode deixar uma marca imensa — e o acolhimento conta tanto quanto a gravidade do ato.

Quando o abuso ocorre dentro de casa, a criança pode desenvolver o que a teoria do apego (Bowlby) chama de apego desorganizado: o lugar que deveria ser de maior segurança e afeto é o lugar onde ela foi colocada em risco, e ela não sabe mais o que esperar. Isso pode levar a uma visão de que ninguém é digno de confiança, com dificuldades nas relações ao longo da vida, e ao transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) — que pode atingir também os pais e a família.

A boa notícia é que há caminho. Com apoio de um psicólogo competente, que trabalhe com a criança e, quando preciso, com a família inteira, muitas crianças elaboram o que viveram. Na atuação junto ao Conselho Tutelar, a Regiane já acompanhou crianças que receberam alta e estão bem. Quanto mais cedo a criança é ouvida e amparada, melhor o desfecho.

Perguntas frequentes

Quais são os sinais de alerta de abuso infantil?

Mudança brusca de comportamento, regressão (xixi na cama, fralda, fala infantilizada), pesadelos, evitar pessoas ou lugares, sexualização precoce em desenhos e brincadeiras e, às vezes, querer "ficar feia". São sinais, não diagnóstico — diante de alteração marcante, busque ajuda.

Quem costuma ser o abusador?

Segundo a psicóloga, cerca de 95% dos abusadores são conhecidos da criança e por volta de 65% estão no próprio grupo familiar (tio, primo, irmão mais velho, pai). Quanto menor a criança, mais próximo costuma ser.

O que fazer ao desconfiar de abuso?

Acolha, converse e mostre que está ao lado da criança. Não se culpe e denuncie: Conselho Tutelar e Disque 100; em emergência, 190. Procure também um psicólogo, pois o cuidado pode envolver a família.

Como prevenir o abuso infantil?

Diálogo aberto, ser um adulto de confiança e ensinar que o corpo é da criança. Atenção a quem se aproxima muito e ao conteúdo em telas. Materiais lúdicos, como "Não-me-toque, seu boboca", ajudam.

A criança pode se recuperar?

Sim. O prejuízo depende do acolhimento, da proteção e do tempo de exposição. Com apoio profissional, muitas crianças elaboram o que viveram e ficam bem.

Sobre este conteúdo

Texto educativo baseado em entrevista da psicóloga Regiane Pais à Rádio RCC FM (Cornélio Procópio/PR) e em sua atuação clínica e junto ao Conselho Tutelar. Referências de psicologia mencionadas: a teoria do apego de John Bowlby e o conceito de apego desorganizado, e o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Material lúdico citado: o livro "Não-me-toque, seu boboca".

Reconhecer os sinais é responsabilidade de todos, e denunciar protege: você não precisa de provas nem de certeza para ligar — basta a suspeita. Conteúdo informativo e educativo; não substitui avaliação psicológica individual nem perícia. Se você se identificou ou está preocupado(a) com uma criança, converse com uma psicóloga. Em situação de abuso, ligue 100 (Disque Direitos Humanos, gratuito e anônimo) ou acione o Conselho Tutelar; em emergência ou risco à vida, 190.