Mirabel de Encanto: o poder de ser diferente (e o valor que não depende de um dom)
Na família Madrigal, do filme Encanto, cada criança recebe um dom para ajudar a comunidade — e a Mirabel foi a única que não recebeu. A partir daí ela passa a se sentir diferente, fora do lugar, e corre o tempo todo atrás de algo que prove o seu valor. A mensagem, porém, é o contrário: a Mirabel sendo quem ela é já é suficiente. O seu valor não depende de um dom — nem de um talento especial, de um desempenho ou da aprovação de alguém.
Neste vídeo, a Regiane analisa a Mirabel, de Encanto, e o que ela nos ensina sobre pertencimento e valor próprio.
A única sem um dom
Em Encanto, a família Madrigal trata os dons como algo que se recebe na infância para ajudar a comunidade. A Luisa recebeu a força; a Isabela, a perfeição das flores. A Mirabel não recebeu dom nenhum — e fica perdida: como vai ajudar essa família, se ela não tem um dom que lhe dê essa chance?
É um filme muito rico, em que várias histórias se entrelaçam e cada personagem tem a sua relevância. Mas é a Mirabel que carrega essa pergunta que muita gente conhece de perto: como faço para pertencer, se eu sinto que sou diferente?
Quando "ser diferente" vira algo ruim
Quantas vezes, para nos sentirmos pertencentes a algo, agimos como a Mirabel? Quando achamos que não somos parecidos com a nossa família — que somos "a ovelha negra" porque somos diferentes —, ficamos correndo atrás o tempo todo de um lugar, de um dom.
O ponto é que a Mirabel coloca uma conotação negativa em ser diferente, e por isso se sente mal. Ela sente que precisa, como todos os outros, ter algo que a marque — e não vê que ela, sendo ela mesma, já é o suficiente dentro daquela família.
Ela não se resigna: a hipercompensação
Diante da frustração, temos diferentes mecanismos de defesa — luta, fuga ou evitação, e resignação (congelamento). A Mirabel não congela e não evita: ela vai para a luta. É uma hipercompensadora — corre atrás, tenta, busca contribuir com a família de todo jeito.
Isso, no começo, engana quem está em volta. Como ela não se tranca no quarto chorando nem finge que nada acontece, as pessoas dizem "ela está bem, está sempre fazendo alguma coisa". Mas os hipercompensadores costumam alcançar resultados a um custo altíssimo: não se deixam parar, mesmo sofrendo.
A busca por aprovação de quem "vale"
Um detalhe importante: o pai e a mãe da Mirabel a validam o tempo todo, dizem o quanto ela é especial do jeito que é, que ela não precisa de um dom. Mesmo assim, ela busca a aprovação da avó — porque é a avó quem controla tudo, quem diz o que é certo e errado, quem valida ou desvalida cada um na família.
Cada vez que a Mirabel tenta ajudar, a avó chega e diz: "talvez seja melhor você não fazer nada". Aos poucos, a Mirabel começa a personalizar o que dá errado, como se a culpa pelas coisas ruins fosse dela — o papel de bode expiatório. E ela internaliza isso como verdade.
Para refletir: quantas vezes você foi responsabilizado por algo que não era sua responsabilidade — e absorveu isso como verdade absoluta? Quando isso vira hábito, passamos a achar que precisamos ser perfeitos, atender o outro e nos encaixar a qualquer custo. E isso cobra um preço alto.
O recorte das redes sociais
Hoje, não é só dentro da família: as próprias redes sociais ditam regras do que seria ser perfeito, bonito, bem-sucedido, querido e amado — e de como as relações "deveriam" ser. Mas a rede é um recorte pequeno e falseado da vida real: a viagem de alguns dias, o jantar daquela noite. Não cabe ali tudo o que de fato se vive.
Assim como a Mirabel passa o filme tentando chegar ao lugar que parece esperado dela, podemos passar tempo demais correndo atrás de um ideal — e sem olhar para nós, para o que temos e para quem realmente somos.
O sofrimento que não parece sofrimento
Quando vai ser tirada a foto da família, ninguém percebe que a Mirabel não está ali. Olhando aquela família em que todos têm o seu dom, ela canta o quanto se sente só — e o quanto, quanto mais ela faz, menos é vista por aquela avó que representa a autoridade.
À primeira vista ela parece funcional, sem problema algum. Mas, olhando com cuidado, há ali um sofrimento genuíno: o desamparo de não ser vista enquanto pessoa, de não ter as suas qualidades reconhecidas. Vale lembrar disso até na clínica: às vezes o sofrimento real está em quem parece estar bem.
Isto é um conteúdo educativo, não um diagnóstico. A leitura da Mirabel aqui é didática — para refletir sobre pertencimento e valor próprio. Se você se identificou com esse peso de buscar aprovação e se sentir nunca suficiente, vale conversar com um(a) psicólogo(a).
O caminho: olhar para si com carinho
Muitas vezes nós precisamos ser os primeiros a olhar para nós e enxergar aquilo de especial que temos — e que ninguém mais tem, porque é só nosso. É olhar para si com o cuidado e o carinho que gostaríamos de receber do outro, aceitando as próprias falhas e fragilidades, e reconhecendo as próprias potencialidades.
Sem contar o final, o filme termina como se aquela família inteira tivesse passado por um processo terapêutico: cada um consegue dizer ao outro como se sente, e todos chegam a um lugar em que cada um tem o seu espaço respeitado. É por isso que a Regiane lembra: terapia não é só para quem tem transtornos — é para quem quer qualidade de vida e aprender a enxergar o próprio valor.
Perguntas frequentes
Por que a Mirabel sofre se ela parece tão funcional?
Porque ela é hipercompensadora: corre atrás e tenta, em vez de se isolar. Isso engana quem está em volta, mas por baixo há o sofrimento de não se sentir vista e a angústia de buscar uma aprovação que não chega.
O que significa Mirabel não ter recebido um dom?
Cada Madrigal recebe um dom na infância para ajudar a comunidade. Mirabel foi a única que não recebeu — e isso vira o gatilho para ela se sentir diferente, sem valor e fora do lugar.
É preciso ter um talento especial para ter valor?
Não. A mensagem do filme é que a Mirabel, sendo quem ela é, já é suficiente. O valor não depende de um dom nem da aprovação de alguém.
O que as redes sociais têm a ver com isso?
Elas ditam regras do que seria perfeito, bonito e bem-sucedido, mas são um recorte pequeno e falseado da vida real. Como a Mirabel, podemos correr atrás de um ideal e esquecer de olhar para nós.
Quando devo buscar ajuda?
Se você se identificou — a busca incessante por aprovação, sentir-se diferente como algo ruim, carregar culpa que não é sua —, vale buscar terapia. Ela é para quem quer qualidade de vida, não só para quem tem transtornos.
Sobre este conteúdo
Texto educativo baseado na análise da psicóloga Regiane Pais sobre a personagem Mirabel, do filme Encanto (Disney), com leitura à luz da Terapia Cognitivo-Comportamental — em especial os mecanismos de defesa (luta, fuga/evitação e resignação) e a hipercompensação descrita na Terapia do Esquema de Jeffrey Young. Análise didática de personagem ficcional; não constitui diagnóstico.
Conteúdo informativo e educativo; não substitui avaliação psicológica individual. Se você se identificou, converse com uma psicóloga. Em situação de crise emocional, ligue 188 (CVV); em emergência, 190 e 192.