Abuela de Encanto: vilã ou mocinha? O peso do trauma entre gerações

Por Regiane Pais — Psicóloga, CRP 08/28603 · Atualizado em · Leitura de 7 min

A Abuela Alma, do filme Encanto, não é vilã nem mocinha: é uma matriarca que perdeu o amor da vida e precisou se reconstruir do zero para proteger os filhos. Desse trauma nasceu a necessidade de controlar tudo — uma tentativa de não passar de novo pela dor. O controle mantém a família junta na aparência, mas deixa quem está à volta em sofrimento. Olhar para ela com compreensão, e não com julgamento, é o que abre caminho para conversar — e é exatamente isso que a TCC ajuda a fazer.

Neste vídeo, a Regiane abre uma série de análises de personagens conversando sobre a Abuela Alma, de Encanto — e o que o controle dela revela sobre as relações familiares.

Vilã ou mocinha? Depende do olhar

Na primeira vista, é fácil rotular: como ela é rígida, como é controladora, como quer que tudo aconteça do jeito dela. Mas, prestando atenção na história, a leitura muda. A Abuela é a matriarca dos Madrigal — uma família em que cada criança recebe um dom — e ela tenta, a todo custo, manter tudo no controle para que a família se mantenha inteira e unida.

Vilã ou mocinha vai depender do olhar que damos a ela. E o convite do filme é justamente devolver o olhar e perguntar: por que será que essa pessoa é assim? O que será que ela está tentando evitar?

De onde vem o controle: o trauma na história dela

A Abuela passou por um processo muito difícil: perdeu o parceiro, o amor da vida, em uma guerra, e precisou se reconstruir do zero para proteger os filhos. Tudo isso fez com que ela se enrijecesse e desenvolvesse uma vigilância maior — "como eu controlo o ambiente para que isso não aconteça de novo, para que essa família consiga se manter unida".

Esse é o ponto: por trás do controle não há, necessariamente, maldade. Há dor. Quando convivemos com alguém que precisa controlar tudo, que não tem a resiliência de aceitar que o outro pode ter escolhas próprias, esse alguém acaba colocando os que estão à volta em sofrimento — sem que isso o torne "uma pessoa ruim".

O peso que atravessa gerações

As pessoas, quando estão se desenvolvendo, percebem o ambiente, se relacionam com ele e vão tirando significado sobre como as coisas funcionam. Por isso o sofrimento de uma geração não fica nela: respinga na seguinte.

No desenrolar do filme, vemos os efeitos: alguns se sentem sobrecarregados a ponto de ter ansiedade; outros acham que precisam ser perfeitos para não desagradar; outros fogem e se escondem, porque não conseguem existir, junto dela, do jeito que são. É assim que padrões e expectativas atravessam gerações — e adoecem a família como um todo.

Quando você se vê do lado de quem é controlado: repare se o ressentimento vem acompanhado de um pensamento fixo ("ele nunca vai me ouvir", "ele acha que só ele sabe a verdade"). Esse pensamento molda o que você sente e te afasta da conversa antes mesmo de tentar. Reconhecê-lo já é meio caminho.

A tríade da Abuela: pensar, sentir e fazer

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental, o que você pensa dita o que você sente e o que você faz. Aplicando essa tríade à Abuela, a história fica clara:

O pensamento (crença) é mais ou menos assim: "em algum momento eu perdi o controle, meu esposo morreu; se eu não mantiver tudo sob controle, esta casa e esta família vão ruir e eu vou perder tudo". Em termos de TCC, a crença central é "somos vulneráveis — qualquer coisa fora do controle pode desmoronar tudo", e a crença intermediária é "preciso controlar tudo, ou tudo irá desmoronar".

A emoção que surge sempre que algo parece escapar é medo: ela se sente vulnerável, se apavora. E o comportamento que vem na sequência é controlar — as pessoas, as coisas, a casa, a vila, tudo o que conseguir — achando que assim protege a família. O paradoxo é que, tentando manter todos unidos, ela mantém todos em sofrimento.

Sentar e conversar: o que mais faz falta

Uma das coisas mais marcantes do filme é o quanto sofremos por não conseguirmos sentar, ouvir o outro e dizer ao outro de forma assertiva — sem discussão, sem briga. Na discussão ninguém escuta ninguém: cada um tenta falar e se defender ao mesmo tempo, e nada é produtivo. Conversar é diferente: é dizer como se sente e ouvir por que o outro faz o que faz.

Com amigos ou namorados difíceis, dá para se afastar. Mas e quando é seu pai, sua mãe, seu irmão, sua avó? Não se joga fora uma relação assim sem tentar antes. Existem, sim, vínculos complexos em que já se tentou de tudo — e aí a prioridade passa a ser a saúde mental. Mas, quando ainda não tentamos sentar e conversar, vale a pena descobrir o que acontece quando o fazemos.

Conteúdo educativo não substitui terapia, e nem toda relação familiar difícil é segura de resolver sozinho(a). Se há violência envolvida, a culpa não é sua e você não está só: Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou, em emergência/risco à vida, 190 (Polícia) e 192 (SAMU).

Se você se identificou com a Abuela

Talvez você sinta que tenta controlar tudo, que quer que as coisas aconteçam exatamente do seu jeito — e que, quando não acontecem, você se desorganiza, fica nervoso, triste ou angustiado. Se é assim, saiba que você não precisa continuar sofrendo. A TCC tem evidências de ajudar pessoas com essas características: na terapia você reconhece o padrão e aprende, aos poucos, a abrir mão do controle.

E se quem está assim é alguém com quem você convive — e de quem não dá para se desvencilhar —, você também pode buscar apoio para aprender a lidar com esse tipo de movimento sem se perder de si. Seus pensamentos coordenam o que você sente e faz: cuidar deles é cuidar da sua qualidade de vida.

Perguntas frequentes

A Abuela de Encanto é vilã ou mocinha?

Nem uma coisa nem outra. Ela é uma matriarca que sofreu uma perda profunda e, por medo de que tudo desmorone, tenta controlar a família. A raiz não é maldade: é dor.

Por que ela precisa controlar tudo?

Porque um dia ela perdeu o controle — perdeu o companheiro e teve de se reconstruir do zero. Daí a crença de que, se algo escapar, tudo pode ruir.

Como o sofrimento de uma geração afeta a seguinte?

Nos desenvolvemos observando o ambiente e dando significado a ele. Quem cresce sob controle e cobrança sofre — com sobrecarga, busca por perfeição ou afastamento. Assim os padrões atravessam gerações.

O que fazer no conflito com um familiar que amamos?

Antes de desistir, tentar sentar e conversar sem briga: dizer como se sente e ouvir o outro. Quando não é possível, aí a prioridade passa a ser a própria saúde mental.

A terapia ajuda quem se identifica com a Abuela?

Sim. A TCC tem evidências de ajudar: você reconhece o padrão de controle e aprende a abrir mão dele. Quem convive com alguém assim também pode buscar apoio.

Sobre este conteúdo

Texto educativo baseado na análise da psicóloga Regiane Pais sobre a personagem Abuela Alma, do filme Encanto (Disney), pela perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental: a tríade cognitiva (pensamento, emoção e comportamento) e o trabalho com crenças centrais e intermediárias, na linha de Aaron Beck. Encanto e seus personagens são propriedade da Disney; a análise é didática e não tem relação com a produtora.

Conteúdo informativo e educativo; não substitui avaliação psicológica individual. Se você se identificou, converse com uma psicóloga. Em situação de violência, ligue 180; em emergência, 190.