Minha sogra é narcisista? Como lidar com a relação

Por Regiane Pais — Psicóloga, CRP 08/28603 · Atualizado em · Leitura de 8 min

Provavelmente você não tem como saber — e tentar diagnosticar a sogra à distância não ajuda. Transtorno de personalidade é algo muito sério, que atravessa toda a estrutura da pessoa, e só um profissional de saúde mental pode levantar essa hipótese, com muito cuidado. Uma coisa é notar um traço (que aparece em muita gente); outra, bem diferente, é o transtorno. O foco mais útil não é colar um rótulo, e sim como você se sente na relação e como pode se posicionar, estabelecer limites e se proteger.

Neste vídeo, a Regiane comenta o uso (e o abuso) de termos como "narcisista" para julgar comportamentos — e o cuidado de não diagnosticar ninguém à distância.

Traço não é transtorno

A sociedade pegou o hábito de usar termos da psicologia para rotular o comportamento dos outros. Mas é preciso separar duas coisas. Um traço é uma característica que aparece em muita gente: toda vez que uma pessoa se prioriza em detrimento dos outros, não leva em conta o sentimento alheio e quer que tudo seja do jeito dela, ela pode estar apresentando um traço de narcisismo. Isso não significa, nem de longe, que ela tenha um transtorno de personalidade.

O transtorno de personalidade é outra coisa — e é sério. Ele se desenvolve ao longo da vida (por isso se chama transtorno de personalidade), atravessa toda a estrutura da pessoa e é a última hipótese que um profissional responsável levanta sobre alguém. Não se bate o martelo por um recorte: é um conjunto de fatores, observado com cuidado e ao longo do tempo.

Vale dizer com todas as letras: ter um traço não é ter um transtorno. Ego, vaidade, querer controle, gostar de aparecer — nada disso, isoladamente, é "ser narcisista" no sentido clínico. "Narcisista" virou quase um xingamento, um carimbo que a gente cola em quem nos contraria. Mas diagnóstico é ato clínico: depende de avaliação cuidadosa, ao longo do tempo, por um profissional de saúde mental — e ninguém faz isso pela internet, por um story ou por um recorte da convivência.

Cuidado com o rótulo. Dizer "fulano é narcisista", "é bipolar", "é borderline" a partir de um vídeo, de uma rede social ou de uma briga de família não é diagnóstico — é se apropriar de termos que não dominamos. Isso causa sofrimento (no outro e em quem rotula) e não ajuda ninguém. Diagnóstico exige avaliação por um profissional, ao longo do tempo. Este texto é psicoeducação: serve para você entender o tema, não para diagnosticar a sua sogra (nem ninguém).

O que o narcisismo é, de verdade

Existe a ideia de que o narcisista é simplesmente prepotente e arrogante. Na Terapia do Esquema — abordagem desenvolvida por Jeffrey Young e aplicada ao narcisismo, de forma hoje referencial, pela psicóloga norte-americana Wendy Behary no livro Desarmando o Narcisista (Disarming the Narcissist) — a gente enxerga diferente: por trás da postura de superioridade costuma haver uma criança vulnerável. A pessoa precisa vestir essa "capa" de que é melhor que todo mundo e de que não precisa de ninguém justamente porque, se a fragilidade aparecer, ela sente que "desintegra" — e não ser ninguém é, para ela, insuportável.

Por isso o cuidado: o que parece só arrogância tem, muitas vezes, uma história de dor por trás. Entender isso não é desculpar comportamentos que machucam — é evitar o rótulo fácil e tratar o tema com a seriedade que ele merece.

O narcisista clínico, segundo a Terapia do Esquema

Para dar nome às coisas com responsabilidade, vale olhar o que a teoria de fato diz — sem que isso vire ferramenta de diagnóstico caseiro. Na leitura da Terapia do Esquema (Young; Behary), a grandiosidade do narcisista clínico não é o "centro" da pessoa: é uma defesa. Por baixo dela costumam estar dois esquemas formados cedo na vida: o de defectividade/vergonha (a sensação profunda de ser, no fundo, falho ou indigno de amor) e o de privação emocional (a crença de que suas necessidades de afeto nunca serão atendidas). A admiração que ele busca o tempo todo é uma tentativa — que nunca preenche de verdade — de tapar esse buraco.

Behary descreve isso em termos de modos: um modo autoengrandecedor, que aparece como superioridade, desprezo pelos outros e necessidade de ser admirado, encobrindo um modo de criança vulnerável — humilhada, envergonhada, que nunca se sentiu suficiente. O autoengrandecedor foi, lá atrás, a "solução possível" para uma criança ferida: o problema é que, no adulto, ele cobra um preço alto — relações que desandam, isolamento, sofrimento. Como resume Behary, a maioria dos narcisistas não é "má" no fundo; são pessoas com um núcleo ferido protegido por uma armadura rígida.

E é justamente essa palavra — rígida — que marca a diferença. O narcisismo existe num espectro: vai do narcisismo saudável (autoestima madura, assertividade, conseguir se cuidar e ainda assim pedir ajuda quando precisa) até apresentações francamente patológicas. O narcisismo clínico é sofrido, pervasivo e inflexível: aparece em todos os contextos da vida (trabalho, amizades, família), atravessa a estrutura da pessoa e a faz sofrer — a ela e a quem está por perto. Isso é muito diferente da sogra "difícil" do dia a dia, que pode ser controladora, vaidosa ou inconveniente em alguns momentos e perfeitamente afetuosa em outros.

Isto é psicoeducação, não um teste. Saber que existe uma criança vulnerável por trás da grandiosidade ajuda a entender o fenômeno — não autoriza ninguém a "encaixar" a sogra no quadro. O espectro do narcisismo é uma ferramenta de raciocínio clínico, usada por profissionais; não é um questionário para aplicar em parentes.

E o "teatro"? Pode não ser narcisismo

Comportamentos teatrais — chorar, fazer drama, precisar de plateia, querer a atenção de todos — costumam ser associados ao narcisismo, mas não são típicos dele. Eles aparecem mais em traços histriônicos: a pessoa é teatral porque precisa da atenção e do afeto dos outros para se sentir importante. Traços diferentes podem até "passear" juntos, o que reforça por que ninguém deve diagnosticar de fora: o que se vê na superfície engana.

Por que não dá para diagnosticar "de fora"

Quando se assiste a um recorte — um reality, um story, um vídeo —, é só isso: um recorte. Num ambiente de exposição e disputa, o comportamento das pessoas muda e aflora o que cada um tem de mais difícil. Além disso, um transtorno se manifesta em todos os contextos da vida (trabalho, amizades, família) e traz sofrimento à própria pessoa e a quem está em volta — não dá para inferir isso de um trecho.

Há ainda uma armadilha: quanto mais a gente lê sobre sintomas, mais "encontra" todo mundo na descrição. Apontar dedo e dizer como o outro "deveria" se comportar também diz algo sobre quem aponta — sobre a própria necessidade de julgar.

Rigidez cognitiva: um nome mais útil

Em vez de um diagnóstico que você não pode dar, há um conceito que ajuda a entender muitas relações difíceis: a rigidez cognitiva. É quando a pessoa acredita que só ela tem a verdade e não se dobra a outro argumento — fala por cima, não aceita o ponto de vista do outro, precisa reafirmar o tempo todo que está certa. Quem é assim costuma ter dificuldade de construir boas relações, porque só a verdade dela importa. E, como qualquer padrão que causa sofrimento, isso também pode ser trabalhado em terapia.

Como se posicionar e se proteger

Se a convivência com a sogra (ou com qualquer pessoa próxima) te adoece, o caminho não é diagnosticá-la — é cuidar de você. Isso passa por reconhecer o que você sente, não ficar refém da opinião alheia, estabelecer limites claros e se posicionar, no seu tempo. O papel do parceiro também conta: quando o casal está alinhado e os dois sustentam juntos os limites combinados, a relação fica menos desgastante para ambos.

Tire o foco do rótulo. Em vez de "ela é narcisista?", experimente perguntar: "como eu me sinto nessa relação?", "o que eu quero proteger?" e "que limite preciso combinar com meu parceiro?". São perguntas que devolvem o controle para você — sem precisar de diagnóstico nenhum.

Como a terapia ajuda?

A terapia não serve para você "provar" que a outra pessoa tem um transtorno. Ela ajuda você: a entender o que sente, a lidar com a rejeição e a crítica, a se posicionar e a estabelecer limites — no seu tempo e sem julgamento. Em vez de tentar mudar quem não quer mudar, o trabalho fortalece a sua autonomia e o seu bem-estar dentro das relações que você tem.

Perguntas frequentes

Como saber se minha sogra é narcisista?

Você não tem como saber sozinho(a), e diagnosticar à distância não ajuda. Transtorno de personalidade é sério e só um profissional pode levantar essa hipótese. O foco mais útil é como você se sente e como pode se posicionar e se proteger.

Qual a diferença entre traço narcisista e transtorno de personalidade?

Traço é uma característica que aparece em muita gente — ego, vaidade, querer controle, priorizar-se. Ter um traço não significa ter transtorno. O transtorno é sério, rígido e pervasivo: atravessa toda a estrutura da pessoa, aparece em todos os contextos da vida e a faz sofrer. Na Terapia do Esquema (Young; Wendy Behary, Desarmando o Narcisista), a grandiosidade do narcisista clínico é uma armadura sobre uma criança vulnerável, ligada a esquemas de defectividade/vergonha e privação emocional.

Posso descobrir o diagnóstico pela internet?

Não. Rotular alguém com base em redes sociais não é diagnóstico — é usar termos que não dominamos. Isso causa sofrimento e não ajuda ninguém.

O que é rigidez cognitiva?

É acreditar que só você tem a verdade e não se dobrar a outro argumento. Quem tem rigidez cognitiva costuma ter dificuldade nas relações — e também pode buscar ajuda.

Como a terapia ajuda numa relação familiar difícil?

Ela ajuda você a entender o que sente, a não ficar refém da opinião alheia, a se posicionar e a estabelecer limites — sem rótulos e no seu tempo.

Sobre este conteúdo

Texto educativo baseado na atuação clínica da psicóloga Regiane Pais e em referências da psicologia. A leitura do narcisismo como uma armadura sobre uma criança vulnerável segue a Terapia do Esquema de Jeffrey Young e, em especial, a obra de Wendy Behary, Desarmando o Narcisista (Disarming the Narcissist) — referência internacional no tema, que descreve o espectro do narcisismo, os esquemas de defectividade/vergonha e privação emocional e os modos autoengrandecedor e criança vulnerável. O texto também trabalha a distinção entre traços e transtornos de personalidade. Não tem finalidade diagnóstica.

Conteúdo informativo e educativo; não substitui avaliação psicológica individual e não serve para diagnosticar ninguém à distância. Se você sofre numa relação familiar, converse com uma psicóloga. Em situação de violência, ligue 180; em emergência, 190.