A origem dos relacionamentos: por que amamos como amamos

Por Regiane Pais — Psicóloga, CRP 08/28603 · Atualizado em · Leitura de 8 min

Nossos relacionamentos começam nas primeiras relações da vida — sobretudo na relação mãe-bebê. É ali que aprendemos a nos relacionar, conforme o nosso temperamento e o que vivemos. Por isso, muitas vezes repetimos padrões antigos na vida adulta — inclusive a dependência emocional. Compreender essa origem é o caminho para desenvolver autonomia e construir relações pautadas em liberdade e respeito.

Neste vídeo, a Regiane conversa sobre de onde vêm os nossos relacionamentos — desde a relação mãe-bebê até a vida adulta.

Onde começa tudo: a relação mãe-bebê

Não dá para falar de relacionamentos sem voltar ao começo. E o começo, como lembra a Regiane, está nas primeiras relações da vida. Para entender essa fase, ela recorre ao pediatra e psicanalista Winnicott, que se debruçou como poucos sobre a relação mãe-bebê — observando, no consultório, justamente esse vínculo que se forma ainda muito cedo.

É ali, nesse primeiro laço, que começamos a aprender a nos relacionar. As experiências dessa fase deixam marcas no jeito como, mais tarde, vamos amar, confiar e nos vincular aos outros.

A mãe suficientemente boa

Winnicott trouxe um conceito que a Regiane considera essencial: o da mãe suficientemente boa. A mãe que é boa não é aquela que atende a todos os desejos da criança o tempo todo — e também não é a que negligencia. É aquela que é "suficientemente boa": cuida, acolhe e, ao mesmo tempo, vai preparando a criança para caminhar.

Esse ponto importa muito nas relações adultas. Muitas vezes, diz a Regiane, agimos como "bebês grandes": queremos que o outro atenda a todas as nossas necessidades — ou, ao contrário, nos subjugamos a ele só para receber um pouco de atenção. Reconhecer isso é parte de amadurecer nos relacionamentos.

Essa intuição clínica de Winnicott — de que o primeiro vínculo molda o jeito como amamos — foi depois sustentada e aprofundada por outras linhas da psicologia. A teoria do apego, de John Bowlby, mostrou como a criança que encontra no cuidador uma base segura aprende a confiar e a explorar o mundo sem medo de perder o vínculo. E a Terapia do Esquema, de Jeffrey Young, descreveu como os esquemas iniciais — esses padrões profundos de pensar e sentir nos relacionamentos — começam a se formar justamente nessas relações primárias. Ou seja: aquilo que Winnicott observava no consultório, estudos mais recentes vieram a confirmar e detalhar.

Para mães, pais e cuidadores: o papel de quem cuida é preparar a criança para a autonomia — para que ela aprenda a gerenciar as próprias necessidades à medida que cresce, em vez de buscar sempre no outro aquilo que lhe falta.

O que faz um relacionamento dar certo

A Regiane conta que tem uma parceria muito boa com o marido — não por não haver desafios, mas justamente por como lidam com eles: existe incompreensão, existem interesses diferentes, existe o tal "suficientemente bom". O que sustenta a relação, para ela, é a liberdade — e liberdade não existe sem respeito.

Some-se a isso a confiança (acreditar no outro mesmo na ausência) e a disposição de estar do lado do outro naquilo que ele sonha e deseja. É um cuidar do outro que vem e vai, nos dois sentidos — sem largar a mão nos momentos difíceis.

Por que repetimos padrões

Aprender a se relacionar de forma saudável não é automático. Pesa o temperamento da criança — se é mais tímida ou mais extrovertida, se é percebida ou fica "no cantinho" — e pesa, também, o que ela vê e ouve. Conforme é instruída, a criança passa a tratar aquele jeito de se relacionar como se fosse normal.

A Regiane lembra dos ditados que ouvia: "ruim com ele, pior sem ele", "homem é tudo igual, não liga, suporta". Mensagens assim ensinaram gerações a viver relações baseadas no medo, e não no respeito. Hoje, felizmente, temos uma realidade diferente — e podemos rever o que aprendemos.

A busca pelo "príncipe da Disney"

Na clínica, a Regiane brinca com quem começa a exigir critérios demais: será que você não está procurando o "príncipe (ou a princesa) da Disney"? Às vezes cobramos do parceiro uma perfeição que nem nós mesmos conseguimos entregar. Como não existe modelo de perfeição, vale a pergunta: estamos sendo justos com o outro?

Dependência emocional: quando o outro vira a fonte da felicidade

O maior problema da dependência emocional, explica a Regiane, é este: "só sou feliz se estiver com outra pessoa". A pessoa joga no parceiro a responsabilidade de fazê-la feliz — mas o outro muitas vezes não dá conta, porque está envolvido com as próprias questões.

É por isso que quem depende emocionalmente costuma "pular de galho em galho": quando um relacionamento termina, já precisa de outro rapidamente, porque não consegue ficar sozinho. E, como ela pergunta, imagine o quanto isso dói — quando o que liberta é justamente conseguir estar só e, mesmo assim, estar bem.

Atenção: reconhecer-se na dependência emocional não é motivo para culpa nem rótulo. É um padrão aprendido, que pode ser compreendido e transformado — e buscar ajuda profissional faz parte desse cuidado.

Como a terapia ajuda

Quando percebemos essa necessidade de buscar no outro o que nos falta, o caminho é fortalecer, dentro de nós, aquilo que a Terapia do Esquema de Jeffrey Young chama de adulto saudável: a parte capaz de acolher a nossa própria criança vulnerável, que precisa de carinho e afeto. Assim, deixamos de exigir que o outro ocupe esse lugar.

Na terapia, esse trabalho fortalece a autonomia e ajuda a reconhecer o que é um relacionamento saudável — aquele pautado em liberdade, respeito, confiança e no cuidado mútuo que vem e vai entre as duas pessoas.

Perguntas frequentes

Onde começam os nossos relacionamentos?

Nas primeiras relações da vida, especialmente na relação mãe-bebê. É ali que começamos a aprender a nos relacionar, e isso nos acompanha na vida adulta.

O que é a mãe suficientemente boa?

É um conceito de Winnicott: não é a mãe que atende a tudo o tempo todo, nem a que negligencia — é a que cuida e, ao mesmo tempo, prepara a criança para a autonomia.

Por que repetimos padrões nos relacionamentos?

Porque aprendemos a nos relacionar muito cedo, conforme o temperamento e o que vivemos. Quem cresceu no medo pode achar isso normal — mas esses padrões podem ser transformados.

O que torna um relacionamento bom e duradouro?

Para a Regiane: liberdade, respeito e confiança — estar do lado do outro naquilo que ele sonha, sem exigir uma perfeição que nem nós entregamos.

Como a terapia ajuda quem sofre com dependência emocional?

Fortalecendo o adulto saudável (na linha de Jeffrey Young), capaz de acolher a própria criança vulnerável, para que a pessoa não dependa do outro para ser feliz.

Sobre este conteúdo

Texto educativo baseado na atuação clínica da psicóloga Regiane Pais e em referências da psicologia: o conceito de mãe suficientemente boa e a relação mãe-bebê de Winnicott; a teoria do apego de John Bowlby (vínculo e base segura); e a Terapia do Esquema de Jeffrey Young (esquemas iniciais, adulto saudável e criança vulnerável).

Conteúdo informativo e educativo; não substitui avaliação psicológica individual. Se você se identificou, converse com uma psicóloga. Em situação de violência, ligue 180; em emergência, 190.