Suas crenças te limitam ou te libertam? Reflexões a partir do filme Paternidade

Por Regiane Pais — Psicóloga, CRP 08/28603 · Atualizado em · Leitura de 7 min

Crenças são as ideias que carregamos como verdade sobre nós, os outros e o mundo — e elas podem agir a favor ou contra as nossas ações. As crenças limitantes te travam ("isso não é para mim", "eu não dou conta") e te deixam de fora da vida que você gostaria de viver. As libertadoras te ajudam a decidir e a agir. A boa notícia: dá para olhar com cuidado para o que você acredita, perguntar de onde aquilo vem e questionar — esse é o começo da mudança.

Neste vídeo, a Regiane parte do filme Paternidade para conversar sobre como o sistema de crenças age no nosso dia a dia.

O filme foi só o gancho: o tema é crença

A Regiane assistiu ao filme Paternidade e, como ela mesma diz, "não é sobre paternidade — é sobre crenças e o sistema de crenças, como ele age no nosso dia a dia". No filme, um pai fica viúvo com um bebê e esbarra numa crença social muito difundida: a de que o homem não seria um bom cuidador, que dar conta de um bebê é "coisa de mãe".

Repare na assimetria: ninguém questiona se uma mulher que cria um filho sozinha é capaz — parte-se do princípio de que ela é. Mas as dificuldades práticas são quase as mesmas (trabalhar, deixar a criança com alguém). A diferença não está na realidade; está na crença que a sociedade dividiu sobre o que cada um pode.

O que são crenças, afinal?

Crenças são, em boa medida, subjetivas e sociais. Temos crenças sociais — aquelas que a sociedade trata "como se verdade fosse" e que a gente absorve sem perceber. Temos crenças religiosas, que aproximam e separam grupos (católicos e protestantes compartilham a base cristã, mas crenças diferentes em certos pontos os distinguem). "As coisas que acreditamos, como o mundo deve funcionar, como as pessoas são, como eu sou no mundo, vêm muito dessa troca minha com o outro."

É aqui que a Terapia Cognitivo-Comportamental ajuda a dar nome ao que a Regiane descreve: para o modelo cognitivo de Aaron Beck, temos crenças centrais (ideias profundas sobre quem somos) que alimentam pensamentos automáticos no dia a dia — como aquela voz que diz "eu não dou conta" antes mesmo de você tentar.

Quando a crença te ajuda — e quando te trava

Crença não é vilã. A própria Regiane conta que mantém o canal porque acredita que informação com fundamentação é fundamental para a gente construir, decidir e não ficar "tateando no escuro". Ou seja: a mesma engrenagem que sustenta um projeto pode, em outra direção, "me travar".

O risco aparece quando você olha para algo que gostaria e pensa: "não, isso não é para mim". Quantas certezas ditas "desde sempre" continuam arraigadas mesmo numa sociedade que mudou tantos paradigmas? Vale a pergunta: quanto disso ainda está travando você?

Um exercício honesto: que crença você carrega como verdade absoluta e que pode questionar hoje? O que você faria se não acreditasse, friamente, que "isso não é para você"?

Não é o "eu sou capaz" do coach

Questionar uma crença não é acordar um dia, gritar "eu sou capaz, eu consigo" e esperar que aconteça por mágica. Nas palavras da Regiane, isso é "balela". Todos nós temos limitações reais, e ninguém precisa se colocar numa situação difícil só para provar algo a si mesmo, a um custo enorme.

O caminho é outro: perguntar de onde vem aquela voz que diz que você não pode. Ela tem fundamentação? Há evidências de que você de fato tentou e não conseguiu? Ou vem de uma percepção distorcida — dificuldades enfrentadas ainda criança, sem suporte, numa fase em que talvez ninguém tenha explicado que era cedo demais, e você internalizou um "eu sou incompetente" que carrega até hoje? Quando esses padrões são antigos, a TCC olha para as crenças que se formaram cedo para entender por que elas se mantêm — e como podem ser trabalhadas.

Crenças sociais que custam caro

Algumas crenças sociais pesam demais. "Ruim com ele, pior sem ele", diziam — uma frase que naturaliza relações abusivas e que hoje conseguimos reconhecer como não sendo verdade absoluta. Quantas pessoas seguem sofrendo por acreditarem que "homem é assim mesmo", que "relacionamento é assim mesmo" e que "não há para onde ir"?

E não é só sobre o feminino. Há o peso despejado sobre o homem: que ele "tem que dar conta", "tem que prover", "não pode ser frágil", "não pode chorar", "não pode ganhar menos que a esposa". Por quê? Onde está o estatuto que diz que essa regra precisa ser seguida — ainda mais numa sociedade em constante mudança?

Se uma crença está te prendendo a uma relação que te faz mal, você não está sozinho(a) e a saída é possível. Em situação de violência, procure ajuda: Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher) ou, em emergência/risco à vida, 190 (Polícia) e 192 (SAMU).

Olhar com carinho para o que você acredita

Duvidar e olhar com carinho para as crenças que você desenvolveu sobre si, sobre os outros e sobre a sociedade é importantíssimo — porque muitas vezes você está abrindo mão de coisas que importam para não contrariar o que "os outros dizem" sobre como a vida deve ser. Diferença de idade, padrão social, escolhas afetivas entre adultos donos de si: quantas dessas regras você segue sem ter perguntado de onde vêm?

A verdade que liberta é a que a própria pessoa descobre. Na TCC, é o trabalho de questionar a crença, checar onde ela se ampara e decidir, com mais liberdade, o que você quer para a sua vida.

Perguntas frequentes

O que são crenças limitantes?

São ideias que carregamos como verdade absoluta ("isso não é para mim", "eu não dou conta") e que nos travam. As libertadoras, ao contrário, ajudam a agir e a decidir.

De onde vêm as nossas crenças?

Em boa parte da troca com o outro: crenças sociais, religiosas e culturais que absorvemos sem perceber, muitas formadas ainda na infância.

Pensamento positivo basta para superar uma crença limitante?

Não. Repetir "eu sou capaz" não muda a realidade — todos temos limitações. O caminho é questionar onde a crença se ampara: há evidências reais ou é uma percepção distorcida?

Toda crença é ruim?

Não. Crenças também sustentam projetos e valores — depende de agirem a favor ou contra as suas ações. O cuidado é com as que travam e trazem prejuízo.

Quando devo buscar ajuda por causa das minhas crenças?

Quando elas te inibem de ser quem você gostaria e te deixam em estado de vigília, achando que estão sempre te julgando. Ninguém merece ser refém do que acredita quando isso traz prejuízo.

Sobre este conteúdo

Texto educativo baseado na atuação clínica da psicóloga Regiane Pais e em referências da psicologia: o modelo cognitivo de Aaron Beck (crenças centrais e pensamentos automáticos) e a Terapia do Esquema de Jeffrey Young (esquemas formados cedo no desenvolvimento), que ajudam a entender como questionar crenças limitantes.

Conteúdo informativo e educativo; não substitui avaliação psicológica individual. Se você se identificou, converse com uma psicóloga. Em situação de violência, ligue 180; em emergência, 190.