Adolescência (série da Netflix): o que ela revela sobre pais e filhos
A série Adolescência (Netflix) gira em torno de um crime, mas o crime fica em segundo plano: o que ela realmente mostra é o quanto pais e filhos podem viver perto e ainda assim não se conhecer de verdade. Para os pais, o convite é fazer uma boa aliança com o filho — estar disponível, não ignorar os sinais e construir uma comunicação de confiança. Para os adolescentes, é entender que a busca de identidade e a necessidade de pertencer a um grupo são naturais — e que pedir ajuda é sinal de força, não de fraqueza.
Neste vídeo, a Regiane analisa a série Adolescência e o que ela revela sobre a relação entre pais, filhos e amigos.
Por que a adolescência é uma fase tão difícil?
A adolescência é uma época em que a pessoa parece "não ser nada": já não é mais criança — se age como criança, ouve "toma vergonha, você já cresceu" — mas, quando tenta agir com autonomia, ouve "que que você pensa que é, acha que pode fazer o que quer?". Ainda não é adulta. E, no meio disso tudo, está tentando responder à pergunta central da fase: quem sou eu no mundo?
É o que o psicanalista Erik Erikson descreveu como a tarefa da adolescência — a construção da identidade. O adolescente traz muito daquilo que os pais lhe passaram e, ao mesmo tempo, passa a viver "mais fora do que dentro de casa", com o grupo de amigos. O que ele guarda do que aprendeu e o que adquire desse novo mundo? Montar esse "eu" já seria difícil em qualquer época — imagine hoje, num mundo de informação infinita, em que ele se busca no olhar do outro e em regras ditadas por influenciadores e pelas redes sobre o que é "ser bonito", "ser popular" ou "ser bom".
"Meu filho está em casa": a falsa sensação de segurança
O filho adolescente não quer mais colo nem sair com os pais; muitas vezes se tranca no quarto. E aí o pai relaxa, pensando "pelo menos está dentro de casa". A Regiane, que já trabalhou no Conselho Tutelar, alerta: estar em casa virou uma falsa sensação de segurança. Pelas redes, mesmo dentro do próprio quarto, o adolescente pode estar exposto a conteúdos e situações que os pais nem imaginam — e isso impacta o desenvolvimento dele.
Na série, isso aparece em dois pais que se achavam próximos e estavam longe: o pai do menino acusado e o pai policial que investiga o caso. O policial ainda tem a chance de se aproximar do filho, ouvi-lo e enxergar o que ele vivia no colégio. O outro pai não — e chora, percebendo que, mesmo achando que fazia melhor do que o próprio pai havia feito, ainda não foi suficiente.
Para mães e pais: a proteção de verdade não está em vigiar a porta do quarto, e sim na comunicação assertiva. Se o filho não confiar em você, ele não vai contar o que teme que seja respondido com repreensão — e é justamente o que ele não conta que mais precisa ser ouvido.
Não ignore os sinais
Muitos adolescentes só chegam ao consultório "quando a coisa já está enorme", porque os pais adiaram: "ah, é só uma fase", "logo passa", "é charme", "é a natureza dele". A orientação da Regiane é direta: não ignore os sinais. É muito melhor buscar ajuda e descobrir que era algo leve e de fácil solução do que ignorar e, quando perceber, já não saber mais o que fazer.
Estar do lado do filho — e colocar limites
E se você descobrisse que seu filho fez algo que jamais imaginaria, que não combina com os valores e a educação que você deu? Não querer enxergar o problema não ajuda. Encarar de frente, entender por que aconteceu e estar ao lado do filho não significa "passar a mão na cabeça": dá para apoiá-lo mesmo quando ele errou e, ao mesmo tempo, ter a postura de quem coloca limites. Afinal, ele ainda não está pronto para a vida — quem o prepara para o mundo somos nós.
O ponto, lembra a Regiane, é que não é sobre a frustração dos pais ("como meu filho fez isso comigo"), e sim sobre como ajudar essa pessoa a repensar o que foi feito. Isso é responsabilidade de quem cuida e educa: estar disponível e não fingir que não está vendo.
Amigos, pertencimento e a dor da rejeição
Somos seres sociais: parte de quem nos tornamos é formada pela sociedade em que estamos inseridos. As relações sociais nos dão autoafirmação, autoestima e pertencimento — e, enquanto o adolescente ainda não aprende sobre si a partir de si mesmo, ele tira do grupo as informações sobre quem ele é. Como mostrou Albert Bandura, aprendemos muito por observação e modelação dos que nos cercam; na adolescência, os pares passam a ser modelo central.
O problema é que esses grupos incluem e excluem. Quando vem a rejeição, ela dói e impacta o desenvolvimento — e cada um reage conforme o próprio temperamento, mas o impacto é real em todos. A série mostra adolescentes passando por avaliação e rejeição constantes, nem sempre de forma que ajude a construir um "eu" seguro.
A série toca em temas pesados — exclusão entre adolescentes, hostilidade nas redes e violência de gênero. Se você ou alguém próximo está sofrendo com isso, não enfrente sozinho(a): procure apoio. Em situação de violência contra a mulher, Ligue 180; em emergência ou risco à vida, 190 (Polícia) e 192 (SAMU). E, para acolhimento emocional, buscar uma psicóloga faz diferença.
A linguagem das redes — e o que os pais não estão vendo
A linguagem "tem vida": muda o tempo todo e cria identidade de grupo. Aqui não se trata de idioma, e sim do meio de comunicação — como cada geração interage. Na série, o policial que investiga fica perdido porque não conhece a nova linguagem das redes: é o próprio filho quem lhe "dá uma aula" sobre o que significam emojis e termos usados nos comentários. A Regiane conta que viveu algo parecido na clínica — descobriu, por uma paciente, que certos emojis de coração tinham peso amoroso que ela nem imaginava.
Esse desconhecimento não é detalhe: por trás de figurinhas e siglas circulam grupos e ideologias que alimentam o ressentimento e a animosidade entre gêneros — a ideia de "rejeição" que, em casos extremos, é usada para justificar a violência contra a mulher. Estar por dentro do que o filho consome e conversa nas redes faz parte de conhecê-lo de verdade.
O que fica da série (e da vida)
A Regiane é clara: ela não vê na série um "diagnóstico" que explique o crime. O adolescente tem um temperamento mais raivoso e está numa fase de explosão hormonal que favorece a agressividade, mas isso não é uma patologia. Como dizia uma professora dela, todos nós seríamos capazes de cometer um ato extremo — depende do porquê, do quando e do como. A proposta da série não é apontar culpados, e sim refletir sobre a própria existência: como os pais se relacionam com os filhos, o quanto realmente os conhecem, e como cada um usa as redes.
E há um recado luminoso no meio de tudo: a Regiane lembra que ainda acredita em relacionamentos amorosos — o dela mesmo é bom, e conhece muitos outros assim. A hostilidade que circula nas redes não é a única realidade possível.
Quando buscar ajuda
Ir à terapia não quer dizer estar "louco" ou "doente mental": a saúde mental precisa ser cuidada como prevenção do sofrimento. Quando uma fase está muito difícil e você não consegue achar saída, vale buscar ajuda — e isso não significa ficar a vida toda em terapia. Se você é pai ou mãe e não sabe como fazer o manejo, busque suporte; se você é adolescente, peça socorro e diga que não está conseguindo sozinho. Nas palavras da Regiane, terapia salva vidas.
Perguntas frequentes
Sobre o que é a série Adolescência da Netflix?
Em quatro episódios breves, gira em torno de um crime — mas o crime fica em segundo plano. O foco real é a complexidade de ser adolescente hoje: identidade, relações sociais, redes e a distância entre pais e filhos.
Por que a adolescência é uma fase tão difícil?
Porque o adolescente já não é criança e ainda não é adulto: está formando a própria identidade no olhar do outro, dentro de grupos e de regras ditadas pelas redes. É natural gerar conflito e insegurança.
Meu filho está em casa, no quarto. Ele está seguro?
Estar dentro de casa virou uma falsa sensação de segurança. Pelas redes, ele pode estar exposto a coisas que os pais nem imaginam. O que protege é o vínculo de confiança, não vigiar a porta do quarto.
Como conversar com um filho adolescente?
Fazendo uma boa aliança: estar disponível, não ignorar os sinais e ser alguém em quem ele confie. Dá para estar do lado do filho e, ao mesmo tempo, colocar limites.
Quando procurar terapia para o adolescente ou para os pais?
Não espere a coisa ficar enorme. Buscar ajuda cedo costuma ser leve e resolve rápido. Terapia não é coisa de quem está "louco": é prevenção e cuidado com a saúde mental.
Sobre este conteúdo
Texto educativo baseado na análise da psicóloga Regiane Pais sobre a série Adolescência (Netflix) e em referências da psicologia: a teoria do desenvolvimento de Erik Erikson (a construção da identidade na adolescência) e a teoria social cognitiva de Albert Bandura (aprendizagem por observação e influência dos pares).
Conteúdo informativo e educativo; não substitui avaliação psicológica individual. Se você se identificou, converse com uma psicóloga. Em situação de violência, ligue 180; em emergência, 190.